25 janeiro 2013
22 janeiro 2013
Bonito, quando os outros falam por nós.
Lembro-me agora que tenho de marcar um
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir até de pretexto
para reflectir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É
que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida, e cada um de nós
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possivel
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,
isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos
encontrar; que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.
Nuno Júdice | 'Poesia Reunida'
17 janeiro 2013
16 janeiro 2013
Recados.
Don't ask me when, but ask me why
Don't ask me how, but ask me where
There is a road, there is a way
There is a place, there is a place
Don't ask me how, but ask me where
There is a road, there is a way
There is a place, there is a place
14 janeiro 2013
"But tonight you're on my mind, so, you never know"
Não sei quantos "eu também" nos faltam. Perdidos aqui e ali, encontrados e gostava eu que não esquecidos. Não sei, mesmo, por onde se faz o caminho. Tenho mil planos. Ou talvez não tenha nem um, porque chamar-lhes planos é optimismo. São ideias, só. E, mesmo assim, longe de mil - talvez uma, ou duas, ou três. Nenhuma com certezas, nenhuma com lógica, e tu sempre a chegares e a saíres, a aproximares-te e a afastares-te.
Há-de haver uma forma. Uma maneira. Um passo certo e irremediável, um seguir em frente e só, só em frente. Nem ao engano, nem atrás, nem ao lado. Só lado a lado.
09 janeiro 2013
Forever.
Esta manhã a telefonia impôs-me que falasse nisto. E a nostalgia apoderou-se de mim. Todo um quinto e sexto ano. Toda uma adolescência - minha e de uma moça de coração enorme, moça essa que à época fazia moda própria a partir das t-shirts mais comuns. E moça essa que, tantos anos depois, segue pela mesma estrada que eu nestas coisas da rádio.
A Pedro de Santarém, a rádio da escola, os corações nos cadernos, os dramas nos intervalos, os moços que andavam no oitavo e no nono ano e por isso eram à nossa vista tão crescidos. (João Pedro, David, Kiko e Daniel, eu e a moça das t-shirts nunca havemos de esquecer os vossos nomes. E associar-vos às Spice Girls, remetendo para aquela altura das nossas vidas, é uma ode.)
O éter faz-me destas surpresas. Em manhãs de chuva, ainda por cima. Bonito!
07 janeiro 2013
19 dezembro 2012
Num instante de insensatez achei que conseguia esquecer-te. Que era possível, pelo menos, passar algumas horas sem a tua lembrança. Sem a tua cara a assaltar-me a memória, sem a tua voz em pano de fundo na minha mente, sem a recordação do teu riso e do teu sorriso, sem a minha imaginação estafada de tanto te carregar em ombros.
Pensei que podia esquecer-me de ti, da tua existência. Afinal, estiveste adormecido cá dentro. Mas depressa acordaste, porque esta coisa que me prende a ti nunca passou de um sono leve. E agora estás sempre acordado, alerta, presente. Há sempre mais um pensamento para ti, mais uma esperança, mais uma estratégia ou um projecto. E há sempre mais um sorriso que me causas sem saberes, ou mais um bocadinho de mim que estalas sem dares conta.
Tenho o mundo para te dizer, e não sei como te hei-de fazer ouvir.
14 dezembro 2012
Sobre vozes. E escrito a correr. Mas para ler devagar.
Acho que é coisa própria de quem vive no meio da música e trabalha no meio de vozes. Notar cada tom, cada inflexão. Apercebermo-nos, inconscientemente, de como a pessoa respira, do subir e descer do volume, das hesitações. Da dicção - essa coisa dos profissionais e que os profissionais, sem querer, estão sempre a analisar na humanidade inteira. Profissional ou não.
Deve ser defeito (profissional, lá está) detectar sinais de riso mesmo antes de esse riso surgir. Deve ser feitio esta forma que se encontra de saborear vozes - de as conhecer melhor do que conhecemos as pessoas, de nos deixarmos levar e envolver por elas. E perder nelas, em certos momentos.
Deve ser por culpa desta vida que levo que há vozes que me ficam guardadas na cabeça. Deve ser por isso que me basta fechar os olhos para conseguir ouvir essas vozes, cá dentro, como se as pessoas estivessem a falar ao meu lado. Não na perspectiva insane da coisa; apenas na perspectiva da memória, da recordação. Relembrar cada hesitação, cada riso, o tom de cada palavra, aquela inflexão, aquele timbre. Aquela doçura. Aquele conjunto que une tudo isto e que me deixa sem chão desde o primeiro dia.
Do geral para o particular, sim. Porque há vozes que mexem mais connosco do que outras, porque há vozes que basta ouvirmos uma única vez e nunca voltamos a esquecer. Porque há vozes que, como disse lá atrás, nos levam. Vozes em que nos envolvemos e nos perdemos. E, fechando os olhos, conseguimos recordá-las em cada pormenor.
(Mas é claro que isto é tudo estritamente profissional. Prefiro manter o assunto nessa esfera. Por questões de sanidade, é evidente.)
04 dezembro 2012
Sobre o óbvio.
A ligeireza de certas frases, e da forma como são ditas, incomoda-me. Ouvir, no tom mais natural, "acho muito bem; não têm dinheiro, não estudam" (isto a propósito desta notícia), é coisa que me deixa sem sequer saber o que responder. Desde logo porque a resposta me parece tão óbvia e tão gritante que tentar explicar fosse o que fosse deixaria sempre a verdadeira essência da coisa de fora, por maior talento que eu encontrasse para defender aquilo em que acredito.
Costumo deixar estes desabafos para o outro canto, o social do "f" branco em fundo azul, mas há assuntos que são demasiado graves para que não os espalhe, de uma forma ou de outra, por todos os sítios por onde passo.
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