Dias de saudades. Dias em que me descubro por entre a facilidade em ignorar o que parecia colado à pele. Dias de paz e de guerra, de ameaças, de reviravoltas, de balanços, de passos perdidos. Dias em que a cabeça não quer acreditar mas em que o coração já não consegue, simplesmente, equacionar mais nada. Dias de vazio depois de tudo parecer tão cheio. Dias assim, em que o tudo fica em nada e em que do nada se tenta fazer alguma coisa.
17 maio 2012
03 maio 2012
Sabedoria.
"Toda a aproximação é um conflito. O outro é sempre o obstáculo para quem procura.
(...)
Estou-te esperando, em devaneio, no nosso quarto com duas portas, e sonho-te vindo e no meu sonho entras até mim pela porta da direita; se, quando entras, entras pela porta da esquerda, há já uma diferença entre ti e o meu sonho. Toda a tragédia humana está neste pequeno exemplo de como aqueles com quem pensamos nunca são aqueles em quem pensamos."
Bernardo Soares [Fernando Pessoa]
30 abril 2012
Respectable.
Era mais ou menos isto que eu vinha aqui dizer. Só que, entretanto, o Rufus antecipou-se. Disse tudo – e bem melhor do que eu diria.
Let's meet in a respectable dive...
20 abril 2012
Os sentidos inversos da vida
mandam mais em nós do que nós. A corda que nos une só nos foge das mãos. Seguimos em lados opostos. Sempre em movimento, afastamento constante e irreparável. Sem volta a dar-lhe – ao caminho e às escolhas que fizemos sem querer, porque tanto podiam ser aquelas como quaisquer outras. O verdadeiro jogo de sorte ou azar é a vida. Não sabemos o que fazer, porque tudo faz sentido e ao mesmo tempo nada faz sentido nenhum; da (in)decisão nasce a (in)consequência. No fim de contas somos apenas seres básicos que seguem os instintos mais errados e os impulsos mais certos. Mas sempre na mais eterna das dúvidas. Depois, dados lançados… e morrer assim. Na praia. Sem aparato, sem nada do que se devia sentir. Sem perguntas, respostas, descobertas. Só remorsos, angústia e frio cá dentro. Um rombo, uma pancada seca, e assim se fica. Para sempre à margem e na margem do que era (tanto) para ter sido.
11 abril 2012
Continuum.
Dias. E meses. E meses, e meses, e meses. Olho para trás e só vejo meses. Olho para a frente e temo que a vista seja igual.
Bolinhos de coco. Chuva lenta. A telefonia, absoluta, tão presente de todas as maneiras possíveis e imagináveis. O mundo lá fora. A vida em passo incerto com o horizonte lá muito, muito ao fundo. Músicas que dizem o que eu nem consigo pensar. Frio na barriga, cansaço, tristeza que não é triste e vontade nem sei de quê. Ausências prolongadas, tempos errados, peças desencaixadas. Fé a mais e desejo na mesma medida. A esperança numa conversa e num bilhete.
E tudo tão longe.
03 abril 2012
"Vira o disco e toca o mesmo."
As pessoas que não falam. Tudo aos papéis. Não sei em que dia foi que os seres humanos desistiram de falar preto no branco. Não sei por que diabo é que a comunicação se perdeu nem em que parte incerta do caminho é que ficou. Se o que nos distingue de tudo e de todos é a possibilidade de transformarmos em palavras o que sentimos, não entendo por que é que isso se esfuma. Não percebo os doces encantos do chove-não-molha por mais que me esforce por descobri-los. Tanta gente perdida em palavrinhas sem interesse, sem conteúdo, sem base, que não valem de nada. Daquelas tão levezinhas que vão antes mesmo de o vento as levar.
Para onde quer que me volte, só chego a uma conclusão: andamos todos trocados. Mesmo todos.
01 abril 2012
22 março 2012
All my friends.
Os melhores amigos do mundo são os meus. Porque me conhecem. E pela certeza que deixam em mim de que alguma coisa ando a fazer bem feita.
Não há mimos como os vossos.
Não há nada como ter-vos. :)
19 março 2012
Pai.
Foste tu quem me ensinou o que era música e foi contigo que aprendi a ouvi-la e a senti-la. De pequenina fui entendendo sons, vozes, estilos. Acordes e melodias. Olhos cheios de sonho quando punhas o gira-discos a tocar. Risos e palavras atabalhoadas de quem não percebia aquelas línguas estrangeiras mas que sentia qualquer coisa a emanar dali e que por isso cantava o que ouvia. Pedia-te que pusesses a tocar coisas que a maioria das crianças não pediriam, porque me habituaste a elas em tempos que são anteriores à minha memória. Foste tu quem me mostrou o prazer do arrepio, do nó na barriga e da lágrima vindos da música. Foste tu quem, pela primeira vez, me apresentou tantas bandas, tantos clássicos. Tudo o que a música é para mim – e a música, para mim, é quase tudo –, é-o por tua causa.
Foi de ti que herdei parte da minha sensibilidade – e percebi isso numa noite, apenas, num instante que hei-de guardar para sempre. A tua vivia escondida, tão bem disfarçada que só naquela noite a pressenti debaixo dessa capa com que brindavas toda a gente, fosse desconhecido ou familiar, e que dificilmente despias.
Não me deixaste nem metade do teu feitio. Fiquei com os princípios que me pareceram acertados, que se adequam a mim, mas houve muito que foi teu e que contigo partiu. Ninguém pode ser como tu, a começar por mim. Não sei ser tão intransigente, nem tão dura. Nem tão implacável – implacável, aqui, não é defeito. É só feitio vincado. E eu fiquei apenas com um sopro dele.
Não sou de datas. Esta não me custa nem mais, nem menos, nem de forma diferente do que outra qualquer. Quando te recordo, hoje, ontem e sempre, é assim – a personalidade inimitável, exigente, forte. Recordo a revolta. Recordo o tanto que havia a unir-nos e o outro tanto que na mesma medida nos separava. Recordo os breves segundos que fizeram a diferença (para o bem e para o mal). E recordo o facto de seres, sempre, música em mim. Vivo no meio da música, e respiro-a. Preciso dela a cem por cento. E tudo por tua causa. Ouvir música é estar contigo, tantas vezes. Há acordes que são nossos. A música esteve sempre presente entre nós, desde a infância que nem recordo até aos derradeiros instantes. Acompanhou-nos em tudo. Por isso, para mim, além de um sorriso, serás sempre música.
E hoje quero que sejas esta.
13 março 2012
Circo.
À primeira vista, está nas nossas mãos fugir. Até parece que no tempo de estalar os dedos ou de piscar um olho podemos fechar a porta para nunca mais voltar. Mas, depois, há uma linha invisível que nos enrola, nos prende e nos proíbe de sair. Os erros dos outros a atarem-nos a alma, a vontade e a independência. Emaranharam-se no caos e pelo caminho estenderam a mão, puxaram-nos pelo colarinho e levaram-nos à traição para um remoinho que não é nosso mas que nos mata antes de os matar a eles.
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