16 abril 2013

I

Passo a minha mão pela tua cabeça,
recurvamente, atentamente, e só com dedos brandos,
olhando-a como passa e vendo onde passou.

Quero tanto saber o que tu pensas.

II

O que tu pensas, mas apenas como,
e quando e o porquê, e não
que estejas pensando ou não que a minha mão,
atenta e recurvada, passa brandamente.

Quero saber aquilo que nem sabes.

III

Aquilo que nem sabes - como saberias
o que o pensar é antes de pensar-se?

A mão que pousa e vai passar atenta.
O olhar que espera ver passar o gesto.
A tácita lembrança de volver os olhos.
A brisa que sabemos vai soprar tão mansa,
ainda antes, no fremir de pétalas ou folhas,
mas não na expectativa de arrepio prévio.

IV

Porque esperaste, ciente, a pele da minha mão?

[ Jorge de Sena ]

01 abril 2013

Verdades.

Gostava tanto de ser crescida.
E de poder dormir três dias seguidos, para descansar esta cabeça, este coração, esta pessoa toda.
E de perceber as coisas.
E de apagar da minha vida a nobre arte de dar uma no cravo e outra na ferradura. Da minha e da dos outros, já agora, se não fosse pedir muito.

20 fevereiro 2013

Anos depois.

No fim do amor, fica a ternura. No fim da rua fica o infinito.

No fim das saudades fica a nostalgia, no fim dos dramas fica a compreensão. No fim das lágrimas há sempre um sorriso.

No fim da agitação, fica a tranquilidade. No fim do passado, fica o presente.

E fica o futuro, também. Todo ele. Todo novo.

15 fevereiro 2013

Sempre.

Just like on the day we met
You pulling on me like a cigarette

13 fevereiro 2013

No Dia Mundial dela.

Não consigo escrever sobre rádio. Não consigo. Nunca consegui. Nada sai bem. Não sei por onde comece nem como acabe. Falta sempre tudo – menos assunto. Assim que tento organizar duas ou três frases, as ideias atropelam-se e percebo que nunca vou saber escrever sobre isto. Sou incapaz de agarrar as pontas soltas e de fazer delas qualquer coisa que se aproveite. Nos grandes amores (não há amores pequenos, mas alguns são maiores do que outros), as recordações são muitas e as emoções são ainda mais. E esta é uma história que começou há pouco tempo mas que já não tem fim, onde não faltam personagens, cenários, vozes e enredos. Tudo, claro, acompanhado de uma extensa banda sonora... e condensado no símbolo absoluto e mais simples: a luz vermelha que separa o mundo real daquele que se cria lá dentro, só nosso e de quem acolhemos nele.

Não sei se tenho jeito para a rádio, mas, seguramente, a rádio tem um jeito especial para mim.



12 fevereiro 2013

A delicadeza de mãos e de gestos com que se molda o que se faz do amor e com amor. A doçura posta em palavras e no silêncio. Suavidade e ternura, pormenor a pormenor. Devagarinho. As músicas certas. No que é e no que se tenta. Na procura e no encontro. Viagem pé ante pé e com pezinhos de lã. Delicadamente.
"Os sentimentos que mais doem, as emoções que mais pungem, são os que são absurdos - a ânsia de coisas impossíveis, precisamente porque são impossíveis, a saudade do que nunca houve, o desejo do que poderia ter sido, a mágoa de não ser outro, a insatisfação da existência do mundo. Todos estes meios tons da consciência da alma criam em nós uma paisagem dolorida, um eterno sol-pôr do que somos."

Bernardo Soares - "Livro do Desassossego"

09 fevereiro 2013

31 janeiro 2013

Casas.

Estou francamente indecisa entre o parece que foi ontem e o parece que passou uma eternidade. Houve tanto nos entretantos. Mas, estranhamente, há coisas que não mudaram nada. A vida andou, viveu-se, o mundo girou (o mundo a sério e o meu, só meu), as pessoas foram, vieram, voltaram, surgiram, desapareceram. E eu fiz o mesmo perante elas, consoante as distâncias, as opções e uma série de pormenores que não vêm ao caso.

Ao mesmo tempo, parece que houve um pé que ficou eternamente no mesmo sítio. Como se um pedacinho da minha alma tivesse ficado para trás, amarrado a qualquer coisa a que sabe sempre bem voltar. Talvez seja aquele pedacinho a que chamam "raízes", "passado", "princípio". Eu chamo-lhe "casa". A primeira.

E vou voltar em breve, com aquele gostinho bom dos regressos.