02 setembro 2011

Casa.


Fico sem perceber muito bem o que é “sorte” e “azar” no meio disto tudo. De repente ocorre-me a piadola fácil e sem graça, apelando à memória de há umas semanas atrás: “a sorte é uma cena que a mim não me assiste”. Mas, em boa verdade, não sei se é falta de sorte ou se é uma sorte diferente. Não consigo distinguir, ainda, o positivo do negativo, o bom do mau, nem consigo admitir o mal necessário em prol de um bem maior. É tudo confuso, com fronteiras pouco nítidas, coisas muito diferentes que se enrolam umas nas outras.

Este é um caminho que não posso adivinhar antes de o pisar. Por agora segue coberto de nevoeiro, como desde sempre. E, como num jogo, não faltam casas no tabuleiro. A casa que se conhece, a casa que já se não quer, a casa que nunca será casa, a casa que foi casa sem o ser, a casa que ainda não é casa mas que se quer que o seja.

31 agosto 2011

Envelope.

Toda a fé numa carta que me leva lá dentro. Toda a fé numa carta de coração aberto, em jeito de menina cansada e obstinada. Toda a fé numa carta das antigas, das que sabem bem, das que já pouco se fazem, das que metem papel, envelope e selo ao barulho, na teimosia de querer fazer bonito e bem-feito, adequado ao destinatário e à ocasião. Toda a fé numa carta que segue em correio azul, na pressa de quem não quer esperar mais, na urgência de quem quer fugir. Toda a fé numa carta e em que ela se transforme no bilhete de ida sem volta. Toda a fé na bondade do destinatário, que todos referem, destacam, relembram, prometem.

Fé na fé. Fé no meio da pouca fé que tenho.

17 agosto 2011

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Há pessoas que não acreditam no lado bom dos outros. Vêem-no mas acham sempre que é mentira. Ninguém pode ser assim tão bom, caramba. Acham que os bons não passam de maus, só que são maus muito espertos. Acham que há sempre um lado malvado, retorcido, escuro, MAU. Mesmo que ele não exista. Insinua-se eternamente que está lá; em casos extremos, assume-se que está mesmo. Lida-se com quem é bom como se fosse mau. Porque a pessoa boa não pode ser boa. A pessoa boa é tão má como as outras. A pessoa boa forra-se de bondade mas é feia, lá dentro. Em caso de dúvida, opta-se por castigar o inocente. E de nada valem desculpas, justificações. A verdade de nada vale. Porque, se quem ouve assim quer, a verdade é simplesmente mentira.

Mesmo que não seja. Mesmo que seja a mais pura das verdades, de nada vale lançá-la aos ouvidos de quem decide não acreditar e infernizar a alma a quem nada fez. Mesmo que o lado mau seja pequenino, pequenino, pequenino, e que não se tenha sequer manifestado, é só ele que importa, que interessa e que, supostamente, se sobrepõe a tudo.

Só se vê o que se quer ver. Porque o orgulho é cego. É uma m***a. Mata o que une as pessoas. Porquê? Porque sim. O nome é a resposta - orgulho.

De repente a mais pura verdade é mentira. De repente tudo o que se diz é interpretado ao contrário. De repente os esforços de uma vida inteira valem muito, muito, muito menos que nada. E a vida segue quase morta, com cada passo dado com uma faca enorme no coração.

08 agosto 2011

Puro génio fotográfico.

Ver a ironia do destino da bancada. Em silêncio. Uma fotografia, duas pessoas. E eu, sem as conhecer, sei mais das ambições de um e do futuro do outro do que elas próprias. A inocente ignorância do sabichão. E o lado retorcido, amarelado, do que finge o sorriso afável. Puro teatro.
Há imagens que valem milhões... E só eu é que sei disso.

28 julho 2011

O limite da exaustão.


Todo o “eu” é um grito. Aflito, sufocado, de quem não aguenta mais. De quem não aguenta mesmo mais.

Um grito mudo, surdo nos ouvidos de quem devia dar por ele. Tão surdo! Tão sem som! Estou a gritar tanto, tanto, no desespero mais profundo, saído do lado mais escuro de mim, uma coisa que eu nunca vi, nem nunca ouvi, e agora está alto e a bom som na minha cabeça, no meu corpo, à minha volta, como se eu estivesse numa cápsula feita desse grito, está na aflição, na mão invisível que agarra o pescoço, nos olhos que deitam rios, no desespero mais pleno… Um grito, um grito, um GRITO!

… E não me ouvem. 

Quero correr até as pernas ficarem moles e não me deixarem continuar nem por mais um passo. Quero correr, fugir, vento na alma, vento cá dentro. Quero desfazer-me em pó nesse vento, e quero que depois ele me espalhe por aí para que não me encontrem. Que ninguém saiba mais de mim. A seu tempo tratarei de me juntar, da poeira aos pedaços e depois ao eu inteiro, mas longe, tão longe que já nada doa, que já nada massacre, que já nada lembre.

Dói-me o passado, dói-me o presente, dói-me tanto o futuro. Dói-me o físico, o não-físico, as sensações, os desgostos. Até me doem coisas que nem sei o que são. Dói-me o desespero e o grito que cada vez é mais alto e que ao mesmo tempo é tão desesperadamente mudo aos ouvidos de quem mo cria, como se caísse no vácuo. Num buraco negro que suga tudo.

A mim já me sugou a energia. Toda. Toda, toda, toda. A que tinha e a que nunca tive. Não aguento mais.

21 julho 2011

Do caminho.


As vitórias fazem-se passo a passo, por vezes em passos tremidos. E cada um deles é, só por si, uma vitória em ponto pequeno. Nem que tenha de ser dado de olhos fechados, mordendo o lábio, de mãos apertadas.

As portas fecham-se. Só que algumas delas têm frestas, ranhuras, por onde a luz passa e por onde se vê o que se quis deixar do outro lado.

20 julho 2011

Nome.


Depois do tudo, como é que se chama ao que fica? Ao resto que resta? Ao nada que parece nada mas que não é bem nada, é mais qualquer coisa embrulhada em algo que não tem nome?

Como é que se chama a esta coisa esquisita que sobrou de ti e de mim?

14 julho 2011

Nó.

Acho que mataste as palavras em mim. Ou então baralhaste-as de tal maneira que estou longe, muito longe de conseguir arrumá-las.

Os dias que já passaram. E, neles, um nó que nunca mais está completamente desfeito.

04 julho 2011

Três.

Não sei se três anos são muito ou pouco tempo. Depende da luz que os ilumina, do pormenor com que se vêem depois de terem passado.

Foram uma eternidade. Três anos gigantes que ao mesmo tempo parecem ter passado num sopro. Três anos pequenos, demasiado velozes, mas que parecem ter-se estendido pelo espaço de várias vidas.

Três. Cheios. Emocionantes. Plenos. A rebentar pelas costuras que cosem o tempo. Num sufoco de sorrisos e lágrimas, do princípio auspicioso ao fim mal-amanhado.

Para o bem e para o mal, há sítios, pessoas, memórias e sensações que nunca vão descolar-se de mim.

01 julho 2011

(Quase) Um.



A calçada matinal debaixo dos pés sempre, sempre apressados. A vista da viagem feita quase diariamente de pé. A luz cá fora. O caminho — que se fará para sempre de olhos fechados, porque há sítios que são nossos, como partes integrantes do nosso corpo, e não nos perdemos lá porque não temos como nos soltar deles.

A porta. As vozes. Os sorrisos. Os bons dias e os olás. Os cheiros. As rotinas, as correrias, as piadas, os prazeres.

As gargalhadas. Os abraços.

Os dias.

A vida.

As pessoas.

O que pairava. Porque há coisas que ficam no ar, que pairam. Flutuam. Não se agarram, embora pareçam palpáveis de tão concretas. Sentem-se. Apenas isso.

"Há um ano atrás, por esta altura, era tudo tão diferente."

Tal como escrevi no outro cantinho digital, um brinde às boas recordações, ao passado para sempre tão doce, e a quem dele ficou para o futuro.