14 dezembro 2012

Sobre vozes. E escrito a correr. Mas para ler devagar.

Acho que é coisa própria de quem vive no meio da música e trabalha no meio de vozes. Notar cada tom, cada inflexão. Apercebermo-nos, inconscientemente, de como a pessoa respira, do subir e descer do volume, das hesitações. Da dicção - essa coisa dos profissionais e que os profissionais, sem querer, estão sempre a analisar na humanidade inteira. Profissional ou não.

Deve ser defeito (profissional, lá está) detectar sinais de riso mesmo antes de esse riso surgir. Deve ser feitio esta forma que se encontra de saborear vozes - de as conhecer melhor do que conhecemos as pessoas, de nos deixarmos levar e envolver por elas. E perder nelas, em certos momentos.

Deve ser por culpa desta vida que levo que há vozes que me ficam guardadas na cabeça. Deve ser por isso que me basta fechar os olhos para conseguir ouvir essas vozes, cá dentro, como se as pessoas estivessem a falar ao meu lado. Não na perspectiva insane da coisa; apenas na perspectiva da memória, da recordação. Relembrar cada hesitação, cada riso, o tom de cada palavra, aquela inflexão, aquele timbre. Aquela doçura. Aquele conjunto que une tudo isto e que me deixa sem chão desde o primeiro dia.

Do geral para o particular, sim. Porque há vozes que mexem mais connosco do que outras, porque há vozes que basta ouvirmos uma única vez e nunca voltamos a esquecer. Porque há vozes que, como disse lá atrás, nos levam. Vozes em que nos envolvemos e nos perdemos. E, fechando os olhos, conseguimos recordá-las em cada pormenor.

(Mas é claro que isto é tudo estritamente profissional. Prefiro manter o assunto nessa esfera. Por questões de sanidade, é evidente.)

04 dezembro 2012

Sobre o óbvio.

A ligeireza de certas frases, e da forma como são ditas, incomoda-me. Ouvir, no tom mais natural, "acho muito bem; não têm dinheiro, não estudam" (isto a propósito desta notícia), é coisa que me deixa sem sequer saber o que responder. Desde logo porque a resposta me parece tão óbvia e tão gritante que tentar explicar fosse o que fosse deixaria sempre a verdadeira essência da coisa de fora, por maior talento que eu encontrasse para defender aquilo em que acredito.

Costumo deixar estes desabafos para o outro canto, o social do "f" branco em fundo azul, mas há assuntos que são demasiado graves para que não os espalhe, de uma forma ou de outra, por todos os sítios por onde passo.

28 novembro 2012

Do que devia ser e não é, do que podia ter sido e não foi.

Vens e vais, chegas e partes, aproximas-te e afastas-te. O mar é maior que tu mas tu não és nada pequeno. E és como as ondas, sabes? Como as ondas. De um daqueles mares nem revoltos, nem tranquilos. Chegas, tocas-me os pés e vais embora outra vez. Como se tivesse de ser assim, como se te tivesses comprometido com uma eternidade qualquer que não te permitisse dar mais que dois passos seguidos na mesma direcção - que não te deixasse vir morrer na tua praia, que é como quem diz no abraço a que se quiseres pertences. Quero dar-te aquilo que nem sequer sabes que podes receber. Mas aposto que o queres. Porque precisas. De um abraço que seja teu, de alguém que olhe em frente contigo mas que te acompanhe nessas tuas estadias no passado. Sei a falta que te faz ser com alguém. Ser, só ser. Seres. Sermos. Se quisesses. Se soubesses. Se, por um instante, ficasses. Te demorasses. Mais que uma onda, mais que dois passos.

16 novembro 2012

La maison des rêves.

Pegar na mala. Fugir. Bilhete sem volta. Frio à chegada, nuvens sem chuva, cachecol no nariz e nas orelhas. Águas furtadas, telhados, janelas, palavras bonitas e um ar diferente dos outros. Cantos e recantos. Cafés, pontes, música, o rio, as mil vistas e ainda mais uma que entretanto tinha escapado. Ruas, museus, subir e descer, lojas onde não se compra nada mas se absorve tudo, montras sem movimento mas com a vida própria da cidade. Luz, noite, fé.

Palavra soltas.
Do sítio a que tardo em voltar.



14 novembro 2012

Esta mania que eu tenho de debruçar demasiado o coração nas coisas. Não o coração dos amores; o dos afectos, o das esperanças, o do futuro. Depois o vento sopra e esse coração abana. Desequilibra-se, cai. Bate no chão e dói um bocadinho.

Haja música, livros e Lisboa. Natal em Dezembro e chocolate quando apetece.

12 novembro 2012

"O Encontro."

"Conto até cem e, se não chegares antes dos cem, vou-me embora. Não chegaste antes dos cem. Conto de cem a um e, se não chegares antes do um, vou-me embora. Não chegaste antes do um. Conto dez automóveis pretos e, se não chegares antes dos dez automóveis pretos, vou-me embora. Não chegaste antes dos dez automóveis pretos. Nem antes dos quinze taxis vazios. Nem antes dos sete homens carecas. Nem antes das nove mulheres loiras. Nem antes das quatro ambulâncias. Nem sequer antes dos três corcundas e, entretanto, começou a chover."

António Lobo Antunes

29 outubro 2012

Futuro.


Jazz de fundo. Soul pelo meio. Noite, luzes, janelas, o mundo lá fora e sede dele em mim. Tanto para ser, para sentir, para descobrir, para viver. Mas, por agora, serenidade do lado de dentro da sala e de mim. O fresco quase frio e a imaginação rápida, rápida, cada vez mais rápida, cada vez lá mais alto. Um oceano pelo meio que, em sonhos, é menos que uma gota da chuva que cai lá fora. Estou aqui e estou lá, a rua para que olho é a minha mas afinal já não é – já é outra, completamente diferente. Palpitante, nova, que me abraça e onde respiro, finalmente, fundo. Fundo como nunca respirei. Um copo de vinho na mão, a noite a cair tranquila, cosmopolita, e o futuro ali tão perto. Olhos postos nele. Porque o primeiro dia do resto da minha vida pode muito bem estar a chegar.

Ao som do jazz.

24 outubro 2012

Simples.

('Play', por favor. Banda sonora para o instante que se segue:)

People Will Say We're in Love by Stacey Kent on Grooveshark

Não há palavras para o bem que nos faz o bem dos outros. Sobretudo quando os outros são metade de nós. Sobretudo quando os outros são, na verdade, um, um só, à volta de quem o nosso mundo gira por tantos e tantos motivos.

Quando do outro lado se flutua, deste lado os pés já não tocam o chão. Quando do outro lado há sorrisos, deste há esperanças. Quando do outro lado há desejos, deste há certezas. Há confiança, apoio, quentinho no coração. E fé no futuro, seja ele como for.

Quando do outro lado se conquista, é como se deste também se conquistasse. E, mais certo do que tudo isto... Quando do outro lado se sonha, deste sonha-se tanto ou mais.

O Amor é assim. Do outro lado e deste. Ataca de um lado. Tem efeitos secundários do outro.

Gosto de ti.
:)

17 outubro 2012

Das saudades.

Luzes acesas no corredor e nas ruas de sempre. Tinha saudades de sair do trabalho-feito-casa com o dia quase feito noite cá fora. Porque a casa é mais casa ainda quando as horas, a luz e a temperatura se aproximam das recordações mais saborosas.

Tinha saudades da chuva à tarde, a tarde e quase más horas, noite dentro, noite fora.

09 outubro 2012

O karma.



Dar e receber. Na mesma medida. Efeito boomerang. Recebes o que dás na mesma quantia ou multiplicado. Tudo isso, essas coisas todas. Muito bonitinho.

Parece charopada. Eu sei. (Por outro lado, não sei por que é que usei o termo "charopada", palavra que nunca me lembro de ter dito ou escrito. Mas assenta bem aqui, parece-me.) Charopada ou não, pasme-se... É verdade. Resulta. Mesmo. Para o bom e para o mau. Quem dá bom, recebe-o; quem dá mal, não espere o bem. Por mais que de um lado se queira e do outro se tente.

Simples.