14 janeiro 2013

"But tonight you're on my mind, so, you never know"

Não sei quantos "eu também" nos faltam. Perdidos aqui e ali, encontrados e gostava eu que não esquecidos. Não sei, mesmo, por onde se faz o caminho. Tenho mil planos. Ou talvez não tenha nem um, porque chamar-lhes planos é optimismo. São ideias, só. E, mesmo assim, longe de mil - talvez uma, ou duas, ou três. Nenhuma com certezas, nenhuma com lógica, e tu sempre a chegares e a saíres, a aproximares-te e a afastares-te.

Há-de haver uma forma. Uma maneira. Um passo certo e irremediável, um seguir em frente e só, só em frente. Nem ao engano, nem atrás, nem ao lado. Só lado a lado.


09 janeiro 2013

Forever.


Esta manhã a telefonia impôs-me que falasse nisto. E a nostalgia apoderou-se de mim. Todo um quinto e sexto ano. Toda uma adolescência - minha e de uma moça de coração enorme, moça essa que à época fazia moda própria a partir das t-shirts mais comuns. E moça essa que, tantos anos depois, segue pela mesma estrada que eu nestas coisas da rádio.

A Pedro de Santarém, a rádio da escola, os corações nos cadernos, os dramas nos intervalos, os moços que andavam no oitavo e no nono ano e por isso eram à nossa vista tão crescidos. (João Pedro, David, Kiko e Daniel, eu e a moça das t-shirts nunca havemos de esquecer os vossos nomes. E associar-vos às Spice Girls, remetendo para aquela altura das nossas vidas, é uma ode.)

O éter faz-me destas surpresas. Em manhãs de chuva, ainda por cima. Bonito!

07 janeiro 2013

"Amo-te tanto. E nunca te beijei…
E nesse beijo, amor, que eu te não dei, guardo os versos mais lindos que te fiz."

Florbela Espanca

19 dezembro 2012

Num instante de insensatez achei que conseguia esquecer-te. Que era possível, pelo menos, passar algumas horas sem a tua lembrança. Sem a tua cara a assaltar-me a memória, sem a tua voz em pano de fundo na minha mente, sem a recordação do teu riso e do teu sorriso, sem a minha imaginação estafada de tanto te carregar em ombros.

Pensei que podia esquecer-me de ti, da tua existência. Afinal, estiveste adormecido cá dentro. Mas depressa acordaste, porque esta coisa que me prende a ti nunca passou de um sono leve. E agora estás sempre acordado, alerta, presente. Há sempre mais um pensamento para ti, mais uma esperança, mais uma estratégia ou um projecto. E há sempre mais um sorriso que me causas sem saberes, ou mais um bocadinho de mim que estalas sem dares conta.

Tenho o mundo para te dizer, e não sei como te hei-de fazer ouvir.

14 dezembro 2012

Sobre vozes. E escrito a correr. Mas para ler devagar.

Acho que é coisa própria de quem vive no meio da música e trabalha no meio de vozes. Notar cada tom, cada inflexão. Apercebermo-nos, inconscientemente, de como a pessoa respira, do subir e descer do volume, das hesitações. Da dicção - essa coisa dos profissionais e que os profissionais, sem querer, estão sempre a analisar na humanidade inteira. Profissional ou não.

Deve ser defeito (profissional, lá está) detectar sinais de riso mesmo antes de esse riso surgir. Deve ser feitio esta forma que se encontra de saborear vozes - de as conhecer melhor do que conhecemos as pessoas, de nos deixarmos levar e envolver por elas. E perder nelas, em certos momentos.

Deve ser por culpa desta vida que levo que há vozes que me ficam guardadas na cabeça. Deve ser por isso que me basta fechar os olhos para conseguir ouvir essas vozes, cá dentro, como se as pessoas estivessem a falar ao meu lado. Não na perspectiva insane da coisa; apenas na perspectiva da memória, da recordação. Relembrar cada hesitação, cada riso, o tom de cada palavra, aquela inflexão, aquele timbre. Aquela doçura. Aquele conjunto que une tudo isto e que me deixa sem chão desde o primeiro dia.

Do geral para o particular, sim. Porque há vozes que mexem mais connosco do que outras, porque há vozes que basta ouvirmos uma única vez e nunca voltamos a esquecer. Porque há vozes que, como disse lá atrás, nos levam. Vozes em que nos envolvemos e nos perdemos. E, fechando os olhos, conseguimos recordá-las em cada pormenor.

(Mas é claro que isto é tudo estritamente profissional. Prefiro manter o assunto nessa esfera. Por questões de sanidade, é evidente.)

04 dezembro 2012

Sobre o óbvio.

A ligeireza de certas frases, e da forma como são ditas, incomoda-me. Ouvir, no tom mais natural, "acho muito bem; não têm dinheiro, não estudam" (isto a propósito desta notícia), é coisa que me deixa sem sequer saber o que responder. Desde logo porque a resposta me parece tão óbvia e tão gritante que tentar explicar fosse o que fosse deixaria sempre a verdadeira essência da coisa de fora, por maior talento que eu encontrasse para defender aquilo em que acredito.

Costumo deixar estes desabafos para o outro canto, o social do "f" branco em fundo azul, mas há assuntos que são demasiado graves para que não os espalhe, de uma forma ou de outra, por todos os sítios por onde passo.

28 novembro 2012

Do que devia ser e não é, do que podia ter sido e não foi.

Vens e vais, chegas e partes, aproximas-te e afastas-te. O mar é maior que tu mas tu não és nada pequeno. E és como as ondas, sabes? Como as ondas. De um daqueles mares nem revoltos, nem tranquilos. Chegas, tocas-me os pés e vais embora outra vez. Como se tivesse de ser assim, como se te tivesses comprometido com uma eternidade qualquer que não te permitisse dar mais que dois passos seguidos na mesma direcção - que não te deixasse vir morrer na tua praia, que é como quem diz no abraço a que se quiseres pertences. Quero dar-te aquilo que nem sequer sabes que podes receber. Mas aposto que o queres. Porque precisas. De um abraço que seja teu, de alguém que olhe em frente contigo mas que te acompanhe nessas tuas estadias no passado. Sei a falta que te faz ser com alguém. Ser, só ser. Seres. Sermos. Se quisesses. Se soubesses. Se, por um instante, ficasses. Te demorasses. Mais que uma onda, mais que dois passos.

16 novembro 2012

La maison des rêves.

Pegar na mala. Fugir. Bilhete sem volta. Frio à chegada, nuvens sem chuva, cachecol no nariz e nas orelhas. Águas furtadas, telhados, janelas, palavras bonitas e um ar diferente dos outros. Cantos e recantos. Cafés, pontes, música, o rio, as mil vistas e ainda mais uma que entretanto tinha escapado. Ruas, museus, subir e descer, lojas onde não se compra nada mas se absorve tudo, montras sem movimento mas com a vida própria da cidade. Luz, noite, fé.

Palavra soltas.
Do sítio a que tardo em voltar.



14 novembro 2012

Esta mania que eu tenho de debruçar demasiado o coração nas coisas. Não o coração dos amores; o dos afectos, o das esperanças, o do futuro. Depois o vento sopra e esse coração abana. Desequilibra-se, cai. Bate no chão e dói um bocadinho.

Haja música, livros e Lisboa. Natal em Dezembro e chocolate quando apetece.

12 novembro 2012

"O Encontro."

"Conto até cem e, se não chegares antes dos cem, vou-me embora. Não chegaste antes dos cem. Conto de cem a um e, se não chegares antes do um, vou-me embora. Não chegaste antes do um. Conto dez automóveis pretos e, se não chegares antes dos dez automóveis pretos, vou-me embora. Não chegaste antes dos dez automóveis pretos. Nem antes dos quinze taxis vazios. Nem antes dos sete homens carecas. Nem antes das nove mulheres loiras. Nem antes das quatro ambulâncias. Nem sequer antes dos três corcundas e, entretanto, começou a chover."

António Lobo Antunes