26 setembro 2011

Do bichinho.

Há músicas que um dia vou passar na telefonia. E vai ser o prazer de uma vida cruzar-me com elas no éter, numa espécie de romance entre mim e o som. E logo eu, que respiro rádio e canções.

Algumas das especiais têm passado por mim nestes dias. Aliás, têm sido dias ricos em acordes, estes. Pedacinhos de som resgatados da poeira do tempo que passou e que dão sentido a tudo num piscar de olhos, num respirar em que a música separa o inspirar do expirar por breves segundos.

Esta é só uma. De entre dezenas que dão um nó na barriga.

 

19 setembro 2011

PF.

"How I wish, how I wish you were here. 
We're just two lost souls 
Swimming in a fish bowl, 
Year after year...
Running over the same old ground, 
What have we found? 
The same old fears. 
Wish you were here."

[Palavras para quê?]

15 setembro 2011

Coisas muitas e uma coisa muito minha.

Consciente que estou do risco que corro de que a partir deste momento duvidem da minha sanidade...

A NASA está a montar um novo foguetão. O maior de todos. Querem pousar em Marte em 2017, sem gente. E querem pousar outra vez, mas com gente, em 2030.

E eu aqui, cabeça literalmente na Lua, com isto a mexer-me com o sistema. A fazer contas para perceber que em 2030 já passei dos 40. E nem pensar em dar ouvidos às vozes dos outros e à que se forma na minha cabeça, no cantinho racional, a dizerem "que disparate". Sonhar não faz mal, é remédio de graça, e sempre tive este apelo em mim (que, em boa verdade, nunca entendi muito bem).

É como se houvesse um pedacinho meu perdido pelo espaço. Uma tirinha de alma, talvez, que chama por mim lá de algum lado e que eu preciso de alcançar. Misturo ciência e fé numa confusão sem lógica nenhuma, num perfeito e absoluto disparate, num delírio que nem para mim faz sentido ― mas que é a única maneira de explicar (ou não) esta minha vontade, este desejo íntimo, interior e desesperado de pôr o pé em qualquer coisa que me projecte até à Lua.

Ou até Marte.

Queria tanto. Tanto.

13 setembro 2011

Olhos.

E é então que ela me arregala os olhos e me manda ter esperança. E "manda" é a palavra certa. Sem meias-tintas, sem tolerâncias. Como fazem as irmãs mais velhas, as conselheiras, os ombros de todos os dias, as que nos agarram antes de cairmos e nos atiram lá bem para longe, para que a ideia de desistir não volte a passar-nos tão depressa pela cabeça.

Arregala-me os olhos em jeito de quem diz coisas importantes e que, naturalmente, são conselhos para toda a vida. Arregala-os porque estou mal, porque me vê a dar passos confusos na direcção errada. E por isso diz-me palavras firmes, convictas, simples e directas, e assim puxa por uma parte de mim que decidi esconder aos poucos.

Há dias em que a minha luz se some. Mas, antes que se apague, ela chega e deita achas, muitas, para a fogueira - de olhos arregalados, sim, olhos que são para levar a sério. Olhos de quem toma conta de mim.

Obrigada. És um presente que o éter me deixou para sempre.

:)

08 setembro 2011

Ervilha.

É como se a vida fosse a melhor prova e a mais definitiva de que há duas mãos lá em cima a mover as peças. As peças somos nós, sou eu e os eus à minha volta, e os tus, e os eles deles e dos outros. E nos movimentos aparentemente mais desconexos descobre-se a coerência, a lógica presente no que nunca poderia ter encaixado, mas encaixou. Tu que o conheces a ele, que esteve com ela, que se encontrou comigo, que te conheço a ti. Gente que vem do passado, gente que passou a meio do caminho, gente que se instalou no presente e promete continuar pelo futuro. E, inexplicavelmente, parte destas pessoas cruzam-se num pontinho qualquer a meio da estrada. Como se, no fim, tudo fizesse sentido. Linhas que se tocam, que se ligam, baptizadas com a frase “o mundo é uma ervilha”, tão intensa e justificada que merece estampagem num letreiro a néon.

02 setembro 2011

Casa.


Fico sem perceber muito bem o que é “sorte” e “azar” no meio disto tudo. De repente ocorre-me a piadola fácil e sem graça, apelando à memória de há umas semanas atrás: “a sorte é uma cena que a mim não me assiste”. Mas, em boa verdade, não sei se é falta de sorte ou se é uma sorte diferente. Não consigo distinguir, ainda, o positivo do negativo, o bom do mau, nem consigo admitir o mal necessário em prol de um bem maior. É tudo confuso, com fronteiras pouco nítidas, coisas muito diferentes que se enrolam umas nas outras.

Este é um caminho que não posso adivinhar antes de o pisar. Por agora segue coberto de nevoeiro, como desde sempre. E, como num jogo, não faltam casas no tabuleiro. A casa que se conhece, a casa que já se não quer, a casa que nunca será casa, a casa que foi casa sem o ser, a casa que ainda não é casa mas que se quer que o seja.

31 agosto 2011

Envelope.

Toda a fé numa carta que me leva lá dentro. Toda a fé numa carta de coração aberto, em jeito de menina cansada e obstinada. Toda a fé numa carta das antigas, das que sabem bem, das que já pouco se fazem, das que metem papel, envelope e selo ao barulho, na teimosia de querer fazer bonito e bem-feito, adequado ao destinatário e à ocasião. Toda a fé numa carta que segue em correio azul, na pressa de quem não quer esperar mais, na urgência de quem quer fugir. Toda a fé numa carta e em que ela se transforme no bilhete de ida sem volta. Toda a fé na bondade do destinatário, que todos referem, destacam, relembram, prometem.

Fé na fé. Fé no meio da pouca fé que tenho.

17 agosto 2011

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Há pessoas que não acreditam no lado bom dos outros. Vêem-no mas acham sempre que é mentira. Ninguém pode ser assim tão bom, caramba. Acham que os bons não passam de maus, só que são maus muito espertos. Acham que há sempre um lado malvado, retorcido, escuro, MAU. Mesmo que ele não exista. Insinua-se eternamente que está lá; em casos extremos, assume-se que está mesmo. Lida-se com quem é bom como se fosse mau. Porque a pessoa boa não pode ser boa. A pessoa boa é tão má como as outras. A pessoa boa forra-se de bondade mas é feia, lá dentro. Em caso de dúvida, opta-se por castigar o inocente. E de nada valem desculpas, justificações. A verdade de nada vale. Porque, se quem ouve assim quer, a verdade é simplesmente mentira.

Mesmo que não seja. Mesmo que seja a mais pura das verdades, de nada vale lançá-la aos ouvidos de quem decide não acreditar e infernizar a alma a quem nada fez. Mesmo que o lado mau seja pequenino, pequenino, pequenino, e que não se tenha sequer manifestado, é só ele que importa, que interessa e que, supostamente, se sobrepõe a tudo.

Só se vê o que se quer ver. Porque o orgulho é cego. É uma m***a. Mata o que une as pessoas. Porquê? Porque sim. O nome é a resposta - orgulho.

De repente a mais pura verdade é mentira. De repente tudo o que se diz é interpretado ao contrário. De repente os esforços de uma vida inteira valem muito, muito, muito menos que nada. E a vida segue quase morta, com cada passo dado com uma faca enorme no coração.

08 agosto 2011

Puro génio fotográfico.

Ver a ironia do destino da bancada. Em silêncio. Uma fotografia, duas pessoas. E eu, sem as conhecer, sei mais das ambições de um e do futuro do outro do que elas próprias. A inocente ignorância do sabichão. E o lado retorcido, amarelado, do que finge o sorriso afável. Puro teatro.
Há imagens que valem milhões... E só eu é que sei disso.

28 julho 2011

O limite da exaustão.


Todo o “eu” é um grito. Aflito, sufocado, de quem não aguenta mais. De quem não aguenta mesmo mais.

Um grito mudo, surdo nos ouvidos de quem devia dar por ele. Tão surdo! Tão sem som! Estou a gritar tanto, tanto, no desespero mais profundo, saído do lado mais escuro de mim, uma coisa que eu nunca vi, nem nunca ouvi, e agora está alto e a bom som na minha cabeça, no meu corpo, à minha volta, como se eu estivesse numa cápsula feita desse grito, está na aflição, na mão invisível que agarra o pescoço, nos olhos que deitam rios, no desespero mais pleno… Um grito, um grito, um GRITO!

… E não me ouvem. 

Quero correr até as pernas ficarem moles e não me deixarem continuar nem por mais um passo. Quero correr, fugir, vento na alma, vento cá dentro. Quero desfazer-me em pó nesse vento, e quero que depois ele me espalhe por aí para que não me encontrem. Que ninguém saiba mais de mim. A seu tempo tratarei de me juntar, da poeira aos pedaços e depois ao eu inteiro, mas longe, tão longe que já nada doa, que já nada massacre, que já nada lembre.

Dói-me o passado, dói-me o presente, dói-me tanto o futuro. Dói-me o físico, o não-físico, as sensações, os desgostos. Até me doem coisas que nem sei o que são. Dói-me o desespero e o grito que cada vez é mais alto e que ao mesmo tempo é tão desesperadamente mudo aos ouvidos de quem mo cria, como se caísse no vácuo. Num buraco negro que suga tudo.

A mim já me sugou a energia. Toda. Toda, toda, toda. A que tinha e a que nunca tive. Não aguento mais.