04 janeiro 2012

Hopes and fears.

Quando a saudade vem sem se perceber porquê. Aparece lá num cantinho, a espreitar, indecisa, curiosa, com a timidez de uma criança. Depois, perde a vergonha e decide mostrar-se, toda ela crescida, decidida, determinada. E, para surpresa, faz doer. Mas é aquele doer bom...

A esperança brilha lá ao fundo, com um labirinto entre mim e ela. Talvez, depois das pedras no caminho, dos recuos, das hesitações, das quedas, das dores, das curvas mal dadas e das voltas confusas, haja mesmo uma luz à chegada da viagem que ilumine o resto da estrada.

02 janeiro 2012

Janeiro.

Janeiro veio, e trouxe com ele a certeza do incerto. A precisão do caminho escuro, desvendado a custo e a cada passo entre paredes demasiado apertadas.

Janeiro veio, e vim eu com ele, grande demais para caber em tão pouco espaço. No bolso trago pedras de que não me sei desfazer, mais pesadas que o mundo e que me prendem a este chão que só queria deitar fora.

Janeiro veio, e veio sem nada. Vazio. Vazio como os Janeiros têm sido. Num vazio teimoso e pegajoso que se prolonga sem dó por todo o calendário. Viram-se as folhas, riscam-se os dias, morrem-se os anos, mas o fio condutor que os vai ligando é este mesmo - feito de vazio, de incerto, de cansaço, e de uma esperança sagaz e teimosa que por vezes é soterrada pelo peso dos dias que não passam. A não ser no calendário.

14 dezembro 2011

Do cúmulo.


A estupidez. Pegajosa, invasiva, exploratória.
O respeito que não se tem, a noção que não se criou, a burrice sem limites. A incapacidade pura e simples de tudo e para tudo. O absurdo, as enormidades atrás de enormidades.
O marasmo na vida, nas vidas, nas coisas. O marasmo no que é palpável e no que anda no ar, nos ouvidos, nas vozes, nas cabeças e nas almas.
O sem nexo. O incoerente.
O cúmulo dos cúmulos de tudo o que é errado, idiota, impensável. Estúpido.
O impossível.

E os corações e as gentes submersos nestas coisas todas.
E tão zangados. Tão tristes. Tão apáticos.

05 dezembro 2011

Notas.

Nesta altura a minha vida faz-se de notas soltas, perdidas aqui e ali, coladas a sítios, a pessoas, ao passado, ao que o presente vê no futuro.

Há notas agarradas a ti, no que foi sem ser, e a mim, que me sinto tão presa quanto me sinto distante. O coração varia ao sabor de muitas coisas. Há uma nota mental que diz que já não gosto do que me fizeste e que já quase não sei gostar do que me deste. Uma nota que serve para eu não me esquecer nunca de que os passos são para ser dados em frente. Nem para trás, nem para os lados. Frente. Só.

Há notas presas às pessoas que me rodeiam, em jeito de manual de instruções. Não posso perder-me nem esquecer-me de como se lida com elas. E a minha cabeça é demasiado linear para as curvas que certa gente dá. No discurso, na postura, nos princípios que defendem e nos fins que ambicionam. Sim. Sou demasiado linear para retorcimentos e perco-me neles com muita facilidade. Preciso de notas que me lembrem qual é o caminho a seguir. E que me recordem que, mais uma vez, é imperativo segui-lo em frente. Porque seguir para o lado é ser quem não sou. E voltar para trás é negar o que aprendi a ser.

E há notas penduradas em mim e só em mim. Para que não me perca no meio de todas as outras notas que vou deixando por aí, para me lembrar de guardar espaço para mim, para me obrigar a encontrar-me. Parece que sou de tudo e de todos menos minha. Divido a alma em mil pedaços, e o pedacinho que sobra para mim está atafulhado, sem espaço para mais nada, reservado para pensar em soluções - a menos - para problemas - a mais.

Mas no fim... É sempre mais fácil esquecer-me de mim.
E lembrar-me de todos. E de tudo.
Vou lutando por ser eu no meio de quem não é ninguém.
Afogo-me em notas mas não me esqueço de nenhuma.
E por vezes lembro-me de ti.
Mas já não faz mal.

21 novembro 2011

Uma questão de lados.


Dou por mim sentada numa poltrona. Do lado de cá, estou eu, com uma fina barreira a separar-me da confusão. Por pouco, não fico submersa. Luto contra a proximidade que se impõe e obrigo-me a ficar na poltrona. Afinal de contas, é mais confortável. A vista é melhor. E apreciar as sagas do lado de fora, como se não fossem as nossas, tem um sabor curioso. Confuso, até irritante, mas curioso.

Do lado de lá, há de tudo. Há barulho, gritos, confusão. Gente indignada com gente baralhada. Gente que aplaude uma mini-catástrofe disfarçada de conquista. Gente que não sabe do que fala e por isso acha que fala de algo bom. Gente que engana, gente que se enganou e gente que se deixa enganar. Do lado de cá, permaneço eu, sem saber o que faça: divido-me entre a vontade retorcida de bater palmas com os enganados, juntando-me à farsa como se caísse nela, e o desejo de desfazer os equívocos a alto e bom som, em palavras escritas aos gritos, porque está na hora de acordar o mundo para o absurdo.

Tenho a verdade e o engano nas mãos. A verdade numa, o engano na outra. Sei o que uns sabem e sei o que os outros não dizem. Conheço tão bem o real quanto a confusão. Mas ninguém sabe disso – nem de um lado, nem do outro. Não sei que caminho siga; sinto o juízo rasgado a meio, entre o conforto da poltrona e a urgência dos pontos nos i’s.

17 novembro 2011

21 outubro 2011

Da confusão dos últimos tempos.


Muitos meses depois. Um ano mais tarde. E as feridas que não saram. Que não saem de mim, que doem com uma dor diferente mas que não deixam de doer.

Há marcas que ficam. Mais ou menos dormentes, consoante os dias, mas nunca desaparecem por completo. E não é preciso muito para a alma ficar em pedaços outra vez. Pedaços esquisitos, diferentes... Mas pedaços. Que doem quando se abrem e se separam.

O passado foi lá atrás, mas não me larga. Subsistem os estilhaços, cá dentro. E não há cola que mos cole. Há, em vez disso, novos bocados de mim para quebrar. E é o tempo que não passa, e é a vida que não muda, e é o futuro que não chega. Errados a acumularem-se onde deviam aparecer certos, nem que fosse de vez em quando, para lhe tomar o gosto. Já esqueci o sabor de tantas coisas...

E são os olhos que dizem tudo. Mas não falam. E eu queria que falassem, que uma voz lhes desse voz. E sentido. Queria palavras nos olhares.

16 outubro 2011

A magia da rádio.

A magia da rádio? Simples.

Duas pessoas que se encontraram no éter e que os senhores do éter se encarregaram de separar. Muito tempo depois, afastados como o Norte do Sul, numa noite o éter une-os outra vez. Um em viagem para o Porto, outra parada em Lisboa. Os dois na mesma frequência. Os dois em sintonia. Sem saberem, de início, mas apercebendo-se depois. Mensagens para lá e para cá, memórias a fluir a propósito das músicas que vão passando, risadas de quem se conhece bem e que já sabe o que outro vai dizer ou fazer ao som da canção que se segue.

É em momentos assim que se sente a verdadeira força do éter. Por mais que os senhores separem, a rádio há-de sempre juntar quem a respira. E junta de uma maneira muito especial, impossível de explicar, e digna de um sorriso único, que só aparece em momentos assim... Momentos de peito cheio de mil coisas sem nome, entre as recordações boas e a lagriminha tranquila mas teimosa ao canto do olho. A alma de viagem ao passado. Instantes maiores ou mais pequenos, mas únicos. Indescritíveis. Puramente mágicos.

Com tanto ou tão pouco, a noite mais comum de todas tornou-se nisso mesmo: numa noite mágica. Porque este fio invisível que mantém as pessoas unidas é obra dela - da magia da rádio.

12 outubro 2011

Posso pedir um desejo?


Sem pestanas caídas, passas fora de época, velas mordidas antes da data ou estrelas cadentes quando ainda está sol?

Hoje é um daqueles dias em que queria poder segurar o coração de algumas pessoas. Para não deixar que ninguém nem nada de mau as magoasse. Agarrar-lhes a alma com as duas mãos e prendê-la, confortá-la. Hoje queria salvar, queria proteger. Queria guardar e resguardar.

Queria tanto.

Posso?

03 outubro 2011

[Im]Paciência.


A paciência é uma linha. Pequena, magrinha. Mirrada, seca. É um saco vazio, uma caixa oca. É menos que zero. Saldo negativo nas contas do que se tolera. Coração à beirinha, sem mais espaço para um passo que seja. Tropeçar na língua afiada. A parede já não é parede, cai-lhe o “pa” e é só rede, de buracos tão largos que tudo passa por eles. Diz-se o que a alma diz, sem filtros sociais ou de bom senso. E tudo sai por fora, transborda porque é demais para caber cá dentro.